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A mulher que não prestava

Orelha:

Eu estava voltando do almoço, de carro, pela Avenida Angélica.

Ela estava voltando do almoço, a pé, pela Avenida Angélica.

Eu a vi, ela me viu. Ela acenou, eu acenei.

Cheguei à agência e me sentei no meio do salão, junto à turma da criação.

Ela chegou uns 10 minutos depois e veio em nossa direção.

Abafei o ruído dos seus passos com um grito: “Pessoal, adentra o nosso recinto a ‘Loirinha Gostosinha da Avenida Angélica’.”

A maioria riu, outros sorriram, alguns ficaram sem jeito. Ela sorriu. Depois riu. Com jeito.

Não deu outra: em poucos segundos, “Loirinha Gostosinha da Avenida Angélica” virou o apelido oficial da nossa estagiária Tati Bernardi. Naquela época, uma menina bem mais velha do que a jovem mulher que ela é hoje. E uma estagiária bem diferente das outras.

Varava as noites escrevendo anúncios, porque passava boa parte dos dias escrevendo contos.

Preferia me mostrar os contos, quando sua obrigação era me mostrar os anúncios. Assim, desconsiderava ostensivamente dois fatos públicos e notórios: o de eu dirigir uma agência de publicidade, não uma editora, e o de eu até entender um pouco de anúncios, mas não entender nada de contos.

Mesmo assim, ou por causa disso, ela ouvia, sempre atenta, a minha opinião pouco abalizada, que se resumia a uma mesma ladainha: “Seus contos são mais velhos e mais sérios do que você. Tente escrever coisas que tenham mais a ver com a sua idade, a sua vivência, a sua turma.”

Tati saiu da W/Brasil como estagiária para ser redatora numa outra agência.
Mas não encontrou no mercado publicitário a mesma ilha da fantasia que eu sempre procurei criar para manter nossas equipes motivadas — e acabou se desiludindo com a propaganda. Pena.

Por outro lado, continuou escrevendo seus contos e, melhor do que isso, passou também a ser lida e relida por muita gente, a ponto de ganhar até fã-clube.

Obviamente, e na sua maioria, são moças e rapazes da sua geração, que se identificam com seu ótimo senso de mau humor, gostam do jeito que ela pensa ou gostariam de ser com ela é.

Para esse fã-clube e para muitos outros futuros leitores (irreverentes nascem a toda a hora, mesmo a contragosto) é que foi editado este “A Mulher Que Não Prestava”, cuja autora insistiu em me pedir que eu escrevesse a orelha, desconhecendo, mais uma vez, o fato de eu não ser apto para lamber nem puxar a orelha de nenhum escritor.

Diante dessa saia justa, o máximo que posso fazer é resumir minha modesta opinião sobre a criadora e a criatura numa frase: acho que as duas prestam.

Washington Olivetto