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Entupiu


Ele tem 46 anos, uma calça bege e uma camiseta roxa. Ele insiste que toca guitarra melhor do que ninguém e me ensina sobre a melhor pizzaria do meu bairro. Escolhemos a novidade com alho-poró.
Ele arruma a mesa enquanto tomo banho. Ele descobre a estrela fosforescente que comprei para amar pessoas, ainda que eu não tenha a menor capacidade para isso. Ela, a estrela azul, deixa a noite com luz de televisão sem som. A vida é uma imagem que não diz nada, mas nos aquece de alguma maneira.
Eu o observo de longe, de perto, de dentro, de lado. Cavoco o máximo que posso esse homem estranho, mas ele não é você. Tento tirar desse saco nem que seja um pozinho da sua existência. Mas ele não é você.
Ele puxa a descarga depois de fazer um xixi barulhento no banheiro que escolhi para ouvir somente o seu xixi. Quero com todas as minhas forças que ele vá junto com o xixi. Ele não é você.
Ele tem 30 anos e a cueca mais feia que eu já vi na minha vida. “Comprei em Londres”, ele conta orgulhoso. Ele tem um hálito estragado, de quem tem preguiça de se cuidar ou anda meio doente. Evito beijá-lo, mas gosto quando ele me olha querendo me canonizar. Pizza novamente, estrela novamente, descarga novamente. Quem sabe no fundo dos olhos, quem sabe no aperto do peito, quem sabe na dobra da bunda, quem sabe no estalar dos dedos, quem sabe em um abraço no escuro, quem sabe numa frase muito humana, quem sabe numa piada esculachada. Nada, nadinha, ele não é você. Tento reviver você ali, naquele saco vazio, mas a dor volta umas mil vezes maior. Quero que a estrela exploda, que a pizza apodreça e que a descarga nunca mais traga esses restos de mundo que não são você.
Prefiro então o silêncio, o vazio, o nada. Mas aí o nada também me explora, o nada também quer coisas de mim. Tento então amar o nada assim como amo você. Mas você é ainda mais nada do que o nada e sinto mais uma vez que estou ao lado de alguém muito fraco. Ele não é você.
Ele tem 20 anos, ele tem 37 anos, ele tem 29 anos, não sei quantos anos ele tem. Ele quer pizza de alho-poró, ele quer uma quentinha, ele quer a azeitona, ele quer ganhar tempo enquanto a pizza não chega, ele quer ganhar tempo depois que a pizza acaba. Ele quer acender minha estrela, apagar, estourar, reinventar. Todos eles mijam em meu banheiro, todos eles conversam com o meu ralo, todos eles puxam a minha descarga. E nenhum desses filhos-da-puta é você.