Perdão
Quando a editora me ligou, me oferecendo o trabalho de ghost writer no livro de memórias de algum famoso, achei que meus dias seriam chatíssimos e que eu me sentiria uma alma vendida e nojenta. Mas, como é preciso pagar as contas, topei. Assinei então um contrato e, no dia seguinte, o tal famoso foi revelado num almoço privê na própria residência do tal famoso.
Obviamente não posso contar aqui de quem se trata, mas peço que vocês imaginem a pessoa mais bonita, mais educada, mais elegante, mais rica, mais charmosa, mais inteligente, mais cheirosa, mais bem sucedida, mais dentes perfeitos, mais voz de deuses inventores do testosterona, mais ombros largos, mais cabelo de comercial de cueca (também não sei o que quis dizer com isso, mas vejo o cabelo dele e penso numa cueca importada, de seda preta, cheirosa, com firme malemolência), mais barriga tanquinho e mais congela respirações em restaurantes. Até o pescoço do cara é bonito, com um traço reto que sai do centro da sua orelha e vai até o princípio de sua horizontal e perfeita clavícula de nadador. Até a canela, até o queixo, até o cotovelo, até a unha levemente rosada do dedão.
O cara é perfeito. Daqueles que não vemos andando por aí, nas ruas, nos cinemas, nas casas de amigos, nos lugares que frequentamos. Que também não vemos naquelas festas mais frescas que, por alguma razão misteriosa, por algumas vezes encaramos, curiosos, querendo pertencer à nata. Não é um tipo de ser que se vê, se tem por perto, se sabe, se ouve falar. Nem sei explicar direito. Às vezes, no meio de alguma conversa acalorada, (e meu calor quase nunca é pelo teor intelectual do que levantamos) me pergunto mesmo se meus remédios para pânico não me fizeram ver miragens. Esse ser existe? Alguém com esse tamanho de mão, existe? Alguém com esse inchaço de lábios, existe?
Criado por sete babás suíças e tendo como primeiros bichinhos de estimação cavalos brancos treinados para amar, o homem anda como um príncipe do bem numa super produção de Hollywood. Mas pensa como uma produção barata alemã. E indaga como uma produção média francesa. E deve trepar como uma produção asiática bem forte e lenta. E ri como um comercial ruim e caro de pasta de dente. E discorda com uma ironia doce que me faz concordar com qualquer coisa que venha perfumada por seu hálito perfeito, qualquer mesmo, aliás, que coisa? Não posso, não consigo, ouvir. Ouço seu uououououo, mas não sei o que o canto do sereio estelar quer dizer exatamente. Só sei que se ele não tiver razão, a razão perdeu a razão.
E então combinamos, toda quarta, sete da noite, na casa dele. Eu, meu laptop, minha caneta, meu caderninho, meu óculos, minha vontade de quitar meu apartamento. Eu, minha calça de couro, minha blusa decotada, meu salto gigantesco, minha sombra nos olhos, meu novo corte de cabelo de modo a esconder minha gigante testa e minhas vontades de nunca mais voltar para o meu apartamento. E mil perdões dentro do peito. Você aceita um chá, Tati? Perdão por eu ser baixinha, penso. Não falo, mas penso. Perdão pelas minhas olheiras, perdão pelo meu pé estranho. Perdão pelo meu dente grande e torto. Perdão por eu ter faltado no Pilates ontem, pela minha barriga que já não é mais a mesma, pela minha bunda que nunca foi. Nada disso falo, mas o tempo todo, quero pedir perdão. Sua beleza é tanta que me sinto em falta com o cosmos. Sua superioridade é tanta que juro, baixinho, pra mim: nunca mais vou usar aquele pijama amarelo com ursos e o pote de mel, nunca mais vou sentar corcunda em restaurantes, nunca mais vou preferir os sapatos confortáveis, nunca mais vou comprar edredom na M. Martan, nunca mais vou ficar sem depilar só para os pêlos crescerem bastante e não ficaram encravados. Nunca mais, oh, Deus, oh rei, nunca mais. Sim, aceito um chá, e arrumo o óculos, séria.
Quer açúcar? Perdão. Pelo lixo nas ruas. Pelo ar seco. Por esse cara que passou agora buzinando e xingando lá fora. Pelos pêlos de cachorro na minha meia calça. Perdão por eu não falar com sotaque britânico, como a sua ex namorada anjinha da Victoria Secrets. Perdão pelo mendigo que vi na Av. Brasil, antes de chegar na sua mansão. Sim, aceito, só uma colherinha.
Ele então começa a me contar. Sua história. Como conseguiu isso, aquilo, aquilo mais, aquilo outro. E sua ex mulher e a outra e mais a outra. E isso, e aquilo. E eu o escuto, pensando, enquanto ele coordena cronologias e tons, uma única frase que se repete a cada quarta, a cada segundo: quequeéisso! Só isso. Ainda não escrevi uma linha do livro pois, quando coloco meu gravador pra escutar em casa, só consigo olhar para um ponto perdido da minha parede branca e pensar: quequeéisso! Quando não isso, sigo pedindo perdão, sempre, com as pernas bem cruzadas. Para eu toda não virar uma imensa vagina e sugá-lo para sempre. Tirando do mundo de uma vez esse erro, essa coisa além, esse estraga prazeres, essa constatação de que estivemos todos errados e feios e sujos e pobres e menores esse tempo todo.
Isso não é um homem, é uma ofensa pra humanidade. É ele quem deveria pedir desculpas. Perdão por eu não combinar com o mundo, Tati. Perdão por você ter derrubado o chá inteiro na roupa, Tati. E ter colocado a colerinha de açúcar na testa. Eu sei, eu sei, nem eu aguento a minha beleza. Eu mereço mesmo sumir, pode me comer. Inteiro. Perdão, perdão.